9 de outubro de 2009

O Observador

IC 12 : Construção Adiada
Num dos debates “frente-a-frente” organizados pelas televisões na pré-campanha para as legislativas, o Primeiro-Ministro José Sócrates quando questionado por Francisco Louça sobre as “Auto-Estradas do Centro” esclareceu que esta adjudicação não iria em frente nesta legislatura.
As Auto-Estradas do Centro, para que os leitores se recordem, é o nome da concessão rodoviária que inclui 184 km de novas estradas, entre as quais, além de outros trajectos, as vias fundamentais Viseu-Coimbra em auto-estrada e a conclusão do IC 12 (Mangualde - Canas de Senhorim). O governo seguiu pois a recomendação das Estradas de Portugal e não adjudicou esta concessão pelo facto de se registarem brutais desvios nas propostas finais dos consórcios finalistas admitidos numa 1ª fase. Os números são de facto avassaladores: desvios de 119% na proposta da Mota Engil e de 131% na da Edifer (para um valor inicial de 740 milhões de Euros por 30 anos de concessão).
Não podemos negar que o interesse público fica melhor defendido com esta decisão, face à verdadeira “usura” que seria esta adjudicação, a ser paga pelos nossos impostos. Mas isto não invalida que se façam reparos à forma como correu este processo. Em primeiro lugar a junção de várias ligações rodoviárias, grandes e pequenas, nesta concessão, revelou-se confusa e passível de maiores deslizes orçamentais, bem como dificuldades de auditoria e fiscalização. Por outro lado o grau de expectativas das populações quanto a estas obras é diferente nos vários troços (no caso do IC 12 é notória a frustração das populações por mais de uma década de impasse e promessas não cumpridas). Depois, e é público, muitos alertaram no devido tempo, para o facto desta concessão estar sub-orçamentada ou pelo menos assente num cenário financeiro demasiadamente optimista, que a realidade (e a crise?) vieram a desmentir. De igual forma foram vários os anúncios, nesta legislatura, acompanhados de fanfarra e croquete, de que sim, a região finalmente iria ver o inicio da construção do IC12 e da auto-estrada Viseu-Coimbra.
Que pensar de tudo isto? Continuaremos em desvantagem, face a outras regiões, na luta pelo desenvolvimento.
Ao nível politico, as oposições não poderão aproveitar muito deste falhanço rotundo do governo pois é conhecida a animosidade de algumas lideranças partidárias sobre obras públicas e novas concessões rodoviárias (sem prejuízo do mérito ou demérito justeza dessas reservas).
Seria pois uma excelente oportunidade para as várias cores politicas distritais fazerem uma verdadeira “Frente” pela defesa dos interesses da região. No caso do IC 12 é escandaloso que se condicione uma vez mais a sua conclusão e se amarre esta obra a outras intervenções de maior amplitude. Somos filhos de um deus menor? A região de Viseu, não obstante o seu dinamismo, continua a ser preterida e mal tratada pelos governos das várias cores politicas. Isto acontece em matéria de estradas mas também na Universidade Pública, na ferrovia e em vários outros assuntos. Outras regiões de menor peso politico e económico fazem valer de forma mais eficiente os seus grupos de pressão. A meu ver o problema reside também na dificuldade dos nossos eleitos despartidarizarem as intervenções e abraçarem uma frente unida pelos interesses da região. O distrito de Viseu elege nove deputados e estes deveriam aprender com os deputados de outros círculos (veja-se o caso das regiões autónomas), cerrando fileiras pelos interesses de quem os elege. Lutar pela região também é defender a coesão nacional.
Ainda sobre o IC 12, e em concreto sobre os nós de acesso no concelho de Nelas, este impasse abre uma nova oportunidade para se discutir com clareza o assunto. O silêncio sobre o tema tem sido ensurdecedor. Não consigo compreender porque razão os órgãos autárquicos eleitos têm sido omissos em fazer cumprir os acordos estabelecidos. Todos se lembrarão do “acordo” para o nó de Canas, junto à boiça, acertado entre a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia, posteriormente alterado, sem que esses mesmos órgãos políticos
tenham lutado pelo cumprimento desse acordo ou prestado satisfações à população sobre o assunto.

Caritas in veritate

O período de férias tem o condão de nos dar mais tempo para leituras que consideramos importantes para a nossa formação pessoal.A encíclica do Papa Bento XVI Caritas in Veritate deveria ser lida atenta e demoradamente por todos os católicos e pessoas de cultura. Digo demoradamente porque a profundidade filosófica e pastoral do documento assim o obriga. Num tempo em que tantos acusam a Igreja de não dar resposta às questões da modernidade, encontramos nesse texto uma súmula coerente e orientadora da Doutrina Social da Igreja para os problemas do Homem contemporâneo nomeadamente nas questões do trabalho, crise internacional, ambiente, organização entre os estados, entre outros assuntos. A meu ver, uma leitura imprescindível.

Para qualquer dúvida, esclarecimento ou sugestão agradeço o contacto para mahenriques@ sapo.pt

( Publicado na Edição nº 130 do Jornal de Canas de Senhorim)


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