9 de outubro de 2009

Temas de Urbanismo, Ambiente e Construção

O CARNAVAL – Património Cultural Imaterial a Preservar

Este é o Carnaval de Canas de Senhorim, extraordinário espectáculo do Povo e para o Povo. Que pena nos dá que o Turismo concelhio ao longo de tantos anos, nada tenha feito para mostrar a portugueses e estrangeiros o nosso Carnaval”

António João Pais Miranda in “Canas de Senhorim, o que somos o que queremos”( 1975)

Este excerto de um “apaixonado” texto do saudoso António João Pais Miranda, reveste ainda, 33 anos passados, alguma actualidade.
Em Canas de Senhorim já se disse quase tudo sobre o Carnaval e sobre a sua importância para os canenses. É sem sombra para dúvidas o evento cultural mais intensamente vivido por todos, com raízes bem fundas no bairrismo popular. É uma festa de canenses para canenses, que muitos forasteiros apreciam.
É difícil não concordar que a promoção/divulgação do nosso Carnaval tem ainda um caminho a fazer. Outros Carnavais, de menor tradição e beleza estética, têm sabido usar com mestria a auto-promoção, superando o nosso Carnaval em notoriedade.
Mas a grande questão para futuro é, como tratar do Carnaval enquanto fenómeno de cultura popular? Como imortalizar as marchas, canções e histórias que passam de geração em geração? E por último como potenciar esta riqueza enquanto mais-valia para a dinamização turística da freguesia? Conhecemos alguma divulgação séria deste património?
Recentemente a legislação nacional e internacional veio consagrar formas jurídicas de protecção, salvaguarda e inventariação do Património Cultural Imaterial, onde o Carnaval de Canas pode ver um estímulo para de forma pioneira se lançar num trabalho profundo de registo, memória e divulgação. O Património Cultural Imaterial pode ser visto nas práticas, representações, expressões, conhecimentos e aptidões – bem como nos instrumentos, objectos, artefactos e espaços culturais que lhes estão associados – que as comunidades, os grupos e, sendo o caso, os indivíduos, reconheçam como fazendo parte integrante do seu património cultural.
Na legislação nacional este assunto é recente – cfr. Decreto-Lei nº 139/2009, de 15 de Junho. Consciente da importância do património imaterial vem o legislador, dando também cumprimento a compromissos internacionalmente assumidos, fixar formas de apoio à preservação e divulgação de “tradições e expressões orais”, “expressões artísticas e manifestações de carácter performativo” e “práticas sociais, rituais e eventos festivos”. O Carnaval de Canas reúne diversos destes pontos. O Carnaval na nossa terra é um fenómeno vivo e pujante, mas nem por isso deve desdenhar novas formas de preservação e valorização. Promover a reprodução escrita, sonora e audiovisual das marchas, das letras das canções, das rivalidades ancestrais marcadas pelo bairrismo entre Paço e Rossio, é dar a oportunidade a outros e aos vindouros de conhecer a nossa jóia da coroa. O mencionado diploma legal cria um procedimento da inventariação em base de dados das várias formas de património imaterial, sob a coordenação do Instituto dos Museus e da Conservação,I.P. Este processo de inventário e preservação é apoiado pela Direcção Regional da Cultura do Centro, e pode ser despoletado por iniciativa dos cidadãos, associações e autarquias locais. Parece-me, no caso, estar a Junta de Freguesia bem colocada para liderar este processo de reconhecimento do carácter único do nosso Carnaval, contribuindo para a sua promoção e registo histórico.
Seria pois estimulante avançar com este processo de inventariação, como alavanca de uma nova forma de encarar este património, sonhando até com a criação de um Museu do Carnaval (físico ou virtual), potenciando uma maior ligação ao turismo local e regional. A anunciada Casa da Cultura pode também dar uma ajuda ao lançamento deste processo.
Fica neste artigo a ideia da necessidade de um trabalho sério na preservação da história e expressões culturais do nosso Carnaval, há muito necessária, e agora com possibilidades de ser apoiada pelas entidades culturais competentes.

Para qualquer dúvida, esclarecimento ou sugestão de temas de ambiente, construção ou urbanismo a serem abordados nesta coluna agradeço o contacto para mahenriques@ sapo.pt
(Publicado na Edição nº 130 do Jornal de Canas de Senhorim)

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