18 de maio de 2010

O Destino da Sala-Museu de Arqueologia


(Publicado na Edição nº 137 do Jornal "Canas de Senhorim")
Em 1996, por ocasião das comemorações dos 800 anos do 1º foral vivíamos um tempo de franco optimismo no que concerne à preservação e divulgação do património arqueológico em Canas de Senhorim. A Junta de Freguesia, à época liderada pelo Sr. Fernando Pinto, editou uma obra denominada “História e Património” coordenada pelo nosso ilustre conterrâneo Dr. Evaristo Pinto. No referido trabalho, além de vários textos e apontamentos relacionados com a história e etnografia da freguesia, dava-se conta, de forma sistemática, dos mais relevantes achados arqueológicos por cá encontrados. Esta publicação conheceu grande sucesso – são talvez poucas as casas canenses onde não exista o referido livro – tendo a mesma representado, de facto, um enorme contributo para uma “divulgação democrática” do nosso património colectivo, estabelecendo um laço importante entre o passado e o futuro deste “povoamento” que é Canas de Senhorim.
Na mente dos mais directamente ligados a esta “causa”esteve sempre uma ideia mais ambiciosa: a criação de um Museu Regional de Arqueologia, sediado em Canas de Senhorim. Projecto que o Município deveria abraçar de alma e coração. Projecto sediado em Canas mas emblema do Concelho e da Região. O embrião desta “causa” foi, com o apoio da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários, a Sala-Museu sita no piso superior da Biblioteca José Adelino.
Passados todos estes anos o entusiasmo é menor. Os dinamizadores da arqueologia em Canas de Senhorim podem, justamente, sentir-se defraudados pelo pouco interesse dado ao assunto por parte das entidades competentes. E mal andou quem julgou que este tema não era importante. Ficou por fazer um verdadeiro Museu, sediado em edifício próprio. Esta realização poderia ter sido tão produtiva para a sociedade como outras actividades económicas.
As actividades culturais representam hoje, em muitas localidades portuguesas, um dos maiores factores de identificação, atracção turística e “alavanca” para o desenvolvimento.
Um concelho como o de Nelas deveria ter como prioridade, no domínio da cultura, a divulgação deste património. Com uma capacidade hoteleira relevante em várias das suas freguesias, é de lamentar todos estes anos de desinteresse e alheamento.
Pensemos de forma muito simples: quem nos visita fá-lo, sobretudo, para fazer termas, actividades ligadas ao vinho ou uma escapada à serra da estrela. É importante, não só pelo valor do património, mas também pelo valor económico potencial, encontrar formas de cativar os visitantes para as outras belezas e valores que a nossa terra tem. Fazer com que estes visitantes possam ter motivos para, ao estarem hospedados entre nós encontrem razões para visitar Canas de Senhorim. Visitar o museu, comprar artesanato e produtos locais, fazer percursos pedonais, consumir nos nossos estabelecimentos de restauração e bebidas. As nossas unidades hoteleiras beneficiariam deste “turismo de proximidade”. É toda uma cadeia de valor potencial, sustentável, que pode ser melhorada e desenvolvida. O desprezo dado à Sala-Museu é patente nas publicações do Município.
Estou persuadido que estes projectos culturais podem fazer a diferença. Deixo para vossa reflexão a seguinte comparação: Tivemos nos últimos anos um dos clubes de futebol do concelho na 2ª Divisão de Futebol nacional. Diziam-nos, para justificar o investimento (?!?) em futebolistas das mais diversas proveniências que essa equipa era um embaixador do concelho. Embaixador? Sem qualquer tipo de menosprezo para o referido clube e seus associados, esta aventura representou uma brincadeira demasiada cara – com os resultados que se conhecem – paga pelo erário público e de retornos nulos ou negativos. Pessoalmente nunca conheci ninguém com vontade de nos visitar devido à existência de um clube futebol mediano à escala nacional. E, algumas centenas de milhares de euros (ou mais) depois, vários projectos verdadeiramente importantes ficaram por fazer. Por falta de vontade mas também de financiamento.
O mais importante será a mudança de mentalidades e a consciencialização de que os nossos parcos recursos deverão ser direccionados para actividades que possam criar emprego e riqueza.
Desta forma faço votos para que se encontre um caminho mais digno para o espólio arqueológico existente na Sala-Museu. Que a sua visita e conhecimento se torne obrigatória para os alunos dos Agrupamentos de Escolas do concelho.Que a Junta de Freguesia tenha vistas largas de encarar este projecto como estruturante. E que o Município abrace, ao fim de tantos anos, este assunto como “prioridade” e que dispense, p.ex um dos seus muitos funcionários para estar em permanência no local (o que não será difícil….querendo).
Ter o museu aberto diariamente, com uma direcção científica permanente, com actividades culturais e formativas a este ligadas, com uma promoção adequada na hotelaria regional seria, com toda a certeza, uma grande realização.
Reconhecer os erros nesta matéria e fazer melhor no futuro não é vergonha nenhuma. É um sinal de inteligência.

Para qualquer dúvida, esclarecimento ou sugestão agradeço o contacto para mahenriques@sapo.pt

1 comentário:

Alexandre disse...

Grandes verdades. Eu em tempos já fiz algumas destas propostas à CM e até à JF mas fizeram orelhas mocas. Os Bombeiros não são a instituição ideal para manter, em permanência, abertas uma biblioteca e um museu. Os nossos representantes nada querem saber destes assuntos. Assim vamos ficando cada vez mais pequeninos, de espírito inclusivamente.

Cumprimentos