12 de setembro de 2010

O OBSERVADOR - A Escola Pública e o Facilitismo


(Publicado na Edição nº 141 do Jornal "Canas de Senhorim")


A propalada “Crise da Educação” tem merecido, crescentemente, a atenção da opinião pública. Também nas páginas do “Canas de Senhorim” as Senhoras Professoras Dores Cerveira e Eurides Machado têm-nos trazido por diversas ocasiões reflexões relacionadas com este assunto. Nas linhas seguintes tentarei dar o meu ponto de vista, como cidadão, sobre o chamado facilitismo na Escola Pública.
Um dos temas que mais me preocupa como cidadão são os crescentes sinais de decadência da Escola Pública e do abandono da sua grande missão: Ensinar democraticamente permitindo e esbatendo as diferentes condições socio-económicas de origem dos alunos. Nos grandes Centros urbanos a Escola Pública já é, infelizmente, uma segunda escolha. As famílias com possibilidades económicas optam por colocar os seus filhos nos colégios particulares. A publicação dos rankings escolares, desde 2002, veio apenas confirmar o que todos sabiam: nas grandes cidades, em particular Lisboa e Porto, as escolas privadas além de mais seguras proporcionam melhores conhecimentos e resultados escolares aos alunos. Nas cidades mais pequenas e no interior isso só não acontece porque a Escola não é um “negócio” rentável, constituindo-se esta em regime de monopólio natural. Há várias razões que explicam esta situação. Tivemos 20 anos de politicas educacionais erradas, que introduziram o facilitismo no ensino (a escola centrada mais no aluno que no saber), o aumento da indisciplina e a perda de autoridade dos professores. O Ministério da Educação tornou-se uma verdadeira “esponja” capaz de absorver qualquer moda ou estrangeirismo nas políticas educativas, muitas vezes vindas de países (normalmente nórdicos) cuja realidade, sobretudo cultural, é totalmente diferente da nossa. A cada troca de Ministro, uma nova politica. Mas sempre o mesmo lema: reduzir a exigência, para permitir melhor aproveitamento (estatístico). A isto acresce a continua ingerência dos inspectores do Ministério que nas escolas pressionam os professores (aconselhando) a não se chumbar ninguém. A bem da nação!
Mas vou-me atender às consequências destas politicas. Este caminho que a escola pública está a levar é exactamente o inverso daquilo que se pretendia para a escola de um regime democrático. Pretendia-se que a escola pública nivelasse por cima os alunos. Que fosse um local de excelência, de exigência, onde, independentemente da condição económica e social de origem, o aluno adquirisse as armas (o saber) para poder estar apto a escolher em liberdade e igualdade, o seu caminho profissional ou académico.
Contudo, vivemos hoje na ditadura da estatística. Mais do que a concreta apreensão dos conhecimentos – o que só pela exigência se pode conseguir – pretende-se capacitar as pessoas apenas formalmente (como “não vai Maomé à montanha” levamos “ a montanha a Maomé”), baixando a exigência para níveis mínimos. A consequência prática desta politica é cortar cerce as aspirações de ascensão social e económica dos mais desfavorecidos, que tinham na escola pública (e gratuita) um grande aliado. Os economicamente mais favorecidos (que disso também não têm culpa) terão sempre o suporte familiar para adquirir o saber que a Escola Pública hoje não lhe dá. O que mais entristece é que as pessoas mais desfavorecidas acabam por não percepcionar esta fraude das “Habilitações Formais” que lhe é vendida. Um mero simulacro de sucesso escolar...
Parece-me que andamos todos distraídos. Vejo as Associações de País sempre nas Televisões a falar sobre múltiplos assuntos mas não sobre este. Vejo os Sindicatos sempre com a Escola Pública na boca mas no fundo só mostrando verdadeiro empenho
em questões estritamente corporativas. Este assunto deve começar a ser tratado de forma séria, como tema político da maior importância.
No dia em que a escola pública deixar de nivelar socialmente os alunos estará morta. Os amigos da escola pública devem despir-se de ideologias e defendê-la como um lugar de excelência, disciplina e exigência. Todos os erros são reversíveis!
Para qualquer dúvida, esclarecimento ou sugestão agradeço o contacto para mahenriques@sapo.pt

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